Wednesday, March 26, 2014

Uma carta de amor para Joana, a destinatária de mim



Eu queria escrever uma carta de amor para Joana. Uma carta de amor dessas que amante nenhum jamais conseguiu escrever; uma carta de amor dessas que quando já foi escrita, nenhum ser amado chegou a ler. Eu queria escrever uma carta de amor para Joana, dessas tão intensas que uma vez escrita pelo amante e lida pela pessoa amada, jamais conseguiu ser guardada ou esquecida. Uma carta de amor tão intensa que depois de recebida precisasse ser vivida; trazida consigo, aberta mil vezes e mil vezes relida.

Se eu, com meu desejo de escrever uma carta de amor para Joana, chegasse a escrever essa carta, ela não seria uma carta ridícula, como disse o poeta que são todas as cartas de amor. Eu iria escrever para Joana uma carta de amor cheia de dedos, tendo em cada dedo mil carícias. Por outro lado, se eu escrevesse essa carta de amor para Joana como eu desejo, ela seria uma carta cheia de intimidades; íntimas verdades. No verso de cada página um beijo.

Não sendo ridícula, a carta de amor que eu teria escrito para Joana, não buscaria clichê; não seria apelativa nem tão pouco, démodé. Seria uma carta curta. Um corte de punhal, que fere como quem furta. De leve, tão breve que não passaria do preâmbulo, mas que diria tudo de modo tão claro. Uma carta tão plena de significado e tão satisfatória, que não precisaria ser concluída.  Se eu escrevesse essa carta de amor para Joana como eu desejo, ela, a carta, já no prelúdio, seria um ato de fala feliz para sempre.

A carta de amor que eu quero escrever para Joana levou onze anos para ser pensada. No entanto, desde o princípio ela teria sido recitada, no impulso do primeiro encontro, na vertigem do primeiro sexo, no silêncio do primeiro telefonema, nas reticências que preencheram de riscos e possibilidades todas as mensagens iniciais. Nos primeiros selos dos primeiros cartões postais. A carta de amor que eu vou escrever esteve sempre lá, desde nunca mais.  A minha carta de amor para Joana será cheia de vírgulas, por ênfase ou enumeração. Mas, não respeitará toda regra de pontuação. Poderá ser lida no quintal, na rodoviária, no aeroporto, no banco do carro, no pedal da bicicleta, no brinquedo das meninas, durante o trabalho de parto. Nos eventos e nas rotinas. Nem sempre com métrica e rimas

A minha carta de amor para Joana, terá sido escrita, antes de tudo, no fôlego do primeiro beijo, no pátio de São Pedro, numa Terça Negra. Além de tudo, a carta de amor terá sido uma promessa descumprida, uma jura quebrada, um ato imperdoável e desde antes perdoado. A minha carta de amor é também um ato de amor para sempre negado.

A carta de amor que eu escrevi pra Joana, se desprendeu do passado, passou por nós e ficou aguardando tranquila a nossa chegada ao futuro. Era uma carta de amor, sem medos, com destinatário certo, que se lançava no escuro.

A carta de amor que eu escrevi para Joana era uma carta de amor mais verdadeira que o amor de onze mil amantes, uma carta que nenhum deles jamais escreveu antes.

A minha carta de amor para Joana, por ser dessas cartas que amante nenhum jamais escreveu, era um tanto repetitiva e o teor da carta era certamente alcoólico. Não para que ela fosse lida, gota à gota, mas para que ela fosse, letra por letra, absorvida.  A de amor que eu escrevo para Joana era, sempre, uma carta que foi sem fim. está para sempre no começo, talvez entre um não e um sim, e me lembra todo dia (como um calendário) que neste amor lendário sou o seu destinatário e Joana é destinatária de mim.  ...

 

Escrito em Goiânia, 26 de março de 2014 (inscrito desde 26 de março de 2003) 

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