Tem dias em que a gente não queria estar pra ninguém. Não queria estar em lugar nenhum, não queria estar nem mesmo pra nós mesmos. Como se fosse possível, querendo deixar nosso corpo sozinho em casa, sair por um tempo e só voltar depois de esfriar a cabeça... ah, mas não é tão fácil assim... e nosso corpo (talvez por medo da solidão) não fica sozinho em casa com mais ninguém além de nós mesmos. Nosso corpo é muito dependente de nós (ou seria o contrário?) e fica difícil andar por aí, sair de casa, voltar depois, sem nosso corpo...
Nesses dias, assim como nosso corpo, o corpo de quem amamos insiste em ficar perto de nós. Se não por vontade nossa, por nosso desejo. Este sentimento que às vezes é contrário à nossa própria vontade. E nosso desejo mantém o corpo de quem amamos sempre muito próximo. Se não exatamente em corpo presente, numa presença incorpórea, tão visível e tocante quanto a língua que preenche as dobras e circunda as bordas de uma boa conversa. Essa presença tocante do corpo de quem amamos, da língua que se desdobra em sentidos ambíguos, no centro do corpo, no vão do umbigo, é a abertura de muitas passagens... um ritual, uma massagem... em que o corpo, a língua, o desejo, a conversa, nós e o nossos outros entes, amados, amantes de agora e de antes... tudo isso se mescla em imagens de dimensões fractais, produções caleidoscópicas, toques ritmados, fragmentos de um intermitente, ininterrupto e inquieto discurso amoroso.